68. #PapoÍntimo com István Wessel
Postado 9 de maio de 2026 em Papo Íntimo por Ana Beatriz Cardo

Tem histórias que a gente ouve e fica pensando: isso não pode ser real. A trajetória de István Wessel é uma dessas. Fundador da Wessel, uma das marcas mais respeitadas do setor de carnes no Brasil, István chegou ao país em 1957 com dez anos de idade, sem documentos, sem falar uma palavra de português e com 72 dólares no bolso da família.
Hoje, comanda uma empresa de quinta geração, com 300 funcionários, 400 toneladas de carne processadas por mês e uma história que mistura Holocausto, fuga clandestina, reinvenção constante e uma filosofia de negócios que vale para qualquer setor.
O que István Wessel viveu antes de chegar ao Brasil?
Para entender quem é István Wessel hoje, é preciso começar pelo pai. Açougueiro húngaro, judeu, o pai dele foi preso aos 23 anos durante a Segunda Guerra Mundial e enviado para trabalhos forçados. Então, na hora em que perguntaram quem sabia cozinhar, ele levantou a mão — nunca havia cozinhado de verdade, mas era açougueiro e entendia de tempero. A lógica era simples e certeira: quem cozinha não passa fome e não fica exposto ao frio.
Depois, foi mandado para o campo de concentração. Entrou pesando 84 kg e saiu com 48kg. Quando os americanos o libertaram e distribuíram chocolate, ele comeu apenas um pedacinho — consciente de que o organismo, depois de tanto tempo sem comida, não aguentaria uma sobrecarga. Essa presença de espírito, como István definiu, foi o que o diferenciou de outros sobreviventes que não resistiram exatamente naquele momento de liberdade.
Depois da guerra, o pai reconstruiu tudo: montou um açougue em Budapeste, casou em seis semanas e ficou 60 anos com a mesma mulher. Mas, o comunismo avançou, tomou o negócio e transformou o pai em um açougueiro assalariado do governo. Em 1956, quando a revolução húngara abriu uma janela de fuga, foi a mãe de István — descrita por ele como a “mola propulsora” da família — quem empurrou tudo. O pai resistia: tinham um filho de quatro meses. Ela insistiu, empacotaram 72 dólares equivalentes e fugiram em dezembro daquele ano.
Como a família Wessel foi parar no Brasil?
O destino planejado era a Austrália, onde havia parentes. Porém, na embaixada australiana em Viena, o pai conseguiu sua vaga — e o irmão, que havia fugido junto, foi o número 501 de uma cota de 500. Então, o pai recusou o seu próprio lugar e saiu da fila. Na rua, sem destino, a esposa do tio lembrou que tinha alguns parentes no Brasil.
Então, eles foram à embaixada brasileira. Sem cota, sem burocracia, todos bem-vindos. E assim o Brasil entrou definitivamente na história da família Wessel.
Chegaram ao Porto de Santos em 1957. Sem documentos — refugiado não tem passaporte, como István explicou — foram direto do navio para o trem Santo-Jundiaí. Pela janela, alguém passou uma travessa de sanduíches de presunto e queijo. O pai olhou aquele pão francês com o recheio transbordando e pensou: “Que país incrível. Fazem um sanduíche com essa quantidade de ingrediente.” Na Hungria, você comprava a carne contada em gramas. Aqui, sobrava para fora do pão.
István conta que nunca esqueceu essa acolhida. “O Brasil é o único lugar do mundo onde o estrangeiro é tratado como local”. E foi justamente essa generosidade que moldou a forma como a família Wessel sempre conduziu os negócios.
Como István Wessel transformou um açougue de bairro em uma marca pioneira?
Em menos de um ano depois da chegada, o pai já tinha o seu próprio açougue no Bexiga. Na véspera de abrir, eles foram dar uma volta pelo bairro e contaram dez açougues em um raio de um quilômetro. István disse: “Mas você vai abrir onde tem dez açougues?” O pai respondeu sem hesitar: “Claro, dez açougues querem dizer que tem muito consumidor de carne. É só fazer melhor que os outros.”
Assim, começou o que se tornaria uma das empresas mais longevas e respeitadas do setor alimentício brasileiro.
Além disso, István entrou no negócio aos 20 anos, depois de passagens por cursos variados e uma temporada na Holanda, trabalhando em um frigorífico em Rotterdam com um empresário holandês que ele descreve como uma figura fundamental na sua vida. Foi lá, em 1969, que ele conheceu a maturação de carnes.
Naquela época, toda a carne no Brasil era dura e o filé mignon era a única exceção, que representava 1% do boi. Ele trouxe a técnica para o Brasil e ficou cinco anos em silêncio, com medo de ser mal interpretado em uma época em que os açougues tinham placa de “carne fresca diariamente”.
Depois, veio o carpaccio. Em 1980, em um almoço, ele viu o prato no cardápio, perguntou como era feito e a assessora disse: “Você tem que fazer esse produto para vender na loja.” Ele enrolou carne no plástico, pendurou no congelador e criou o carpaccio embalado brasileiro.
Por fim, veio o hambúrguer artesanal. Em 1995, István lançou um hambúrguer de fraldinha. Mas, fracassou porque a cadeia de frio nos supermercados não era boa o suficiente. Em 2000, foi a mulher, Soninha, quem sugeriu o relançamento. Agora, o hambúrguer representa 75 a 80% do negócio da Wessel.
Quais são as lições de negócios que István Wessel compartilhou?
Em primeiro lugar, a maior lição é a de destruir o próprio negócio de cinco em cinco anos. Não literalmente — o CNPJ e a marca ficam. Mas, a mentalidade, o modelo, os processos: tudo vai para revisão. “Se eu estivesse fazendo hoje o que a gente fazia há dez anos, nós tínhamos fechado”, ele disse. Zona de conforto, para István Wessel, é o começo do fim.
A segunda é responder SAC pessoalmente. Portanto, há décadas, nenhuma reclamação na Wessel é respondida por outra pessoa que não ele. Afinal, uma reclamação resolvida rápido e com generosidade transforma um cliente insatisfeito em um defensor da marca. Dessa forma, ele manda o produto que gerou reclamação e mais dois para o cliente conhecer.
A terceira lição é sobre crescimento cauteloso. Aqui, István compara franquia com casamento: primeiro namora, depois casa, aí vem a lua de mel e só então o dia a dia de verdade. Vai devagar, faz dar certo um antes de abrir vinte.
Por fim, há uma frase que resume bem a filosofia dele: “Barriga no balcão.” Você pode ter uma empresa grande, mas tem que continuar sentindo o negócio de perto. Ele disse que toda vez que passa na frente de um supermercado, entra para olhar os próprios produtos e os da concorrência.
Quem é István Wessel fora dos negócios?
Na intimidade, István Wessel é um homem que cultiva três coisas com muito cuidado: os amigos, o corpo e a cultura. Faz seis atividades físicas por semana — dois dias de natação, dois de caminhada, dois de academia — e acorda às seis da manhã sem reclamar. Além disso, nadou por décadas e diz que a natação será seu último esporte, porque trabalha o corpo inteiro sem machucar.
Tem grupos de amigos em universos muito diferentes: arte, vinho, whisky single malt. Além disso, tem um grupo de amigos baianos que são cerca de 20 anos mais jovens — e esse, ele diz, é o segredo que poucas pessoas conhecem. Quando você chega nos 70 e só tem amigos da mesma idade, 90% da conversa é sobre médico, remédio e dor no joelho. Com amigos mais jovens, a energia é outra.