66. #PapoÍntimo com Benja – A falência não foi o fim
Postado 19 de abril de 2026 em Papo Íntimo por Ana Beatriz Cardo

Tem gente que a gente acha que sempre esteve no lugar em que está hoje. Vê no microfone, na televisão, com uma carreira consolidada de mais de duas décadas, e imagina que foi assim desde sempre. Mas, com o Benja — Benjamin Back, um dos nomes mais conhecidos do jornalismo esportivo brasileiro — a história é completamente diferente. Então, foi exatamente essa história que ele contou no episódio 66 do Papo Íntimo.
Benja chegou ao sofá da Sandra sem filtro e sem a menor vergonha de falar sobre o que viveu: a falência, as dívidas, os 42 cheques devolvidos, o nome sujo em todos os cartórios de São Paulo, a sensação de acordar de manhã sem saber para onde ir. No entanto, ele também falou sobre o que veio depois: a reconstrução, a gratidão, a identidade judaica que nunca escondeu e a carreira que encontrou no futebol, a paixão de sempre.
Quem foi o Benja antes de iniciar a carreira?
Antes de ser a voz que milhões de pessoas ouvem falar de futebol, Benja foi um garoto que começou a trabalhar aos 15 anos porque precisava. Afinal, o pai enfrentou dificuldades financeiras, e não havia outra opção a não ser arregaçar as mangas cedo. Assim, ele foi trabalhar na loja do tio no centro de São Paulo, pagava a própria escola ainda no colegial e, aos 18, prestou vestibular e entrou na PUC para cursar economia — tudo isso enquanto trabalhava o dia inteiro.
Depois, veio o empreendedorismo. Benja montou uma confecção no Bom Retiro, o famoso polo têxtil de São Paulo. Dessa forma, ele saía da faculdade às 10, 11 horas da noite e ainda ia até lá trabalhar, às vezes saindo de madrugada. Era muito esforço, muita garra, mas as coisas não deram certo.
Falência, luto e falta de perspectiva: o período mais duro da vida do Benja
No bate-papo, Benja descreveu com detalhes o momento em que foi cobrar um cliente no Shopping Dourado e encontrou a loja fechada — a pessoa tinha dado um calote e sumido. A partir daí, a bola de neve tomou conta. Sem capital de giro, sem fôlego, as dívidas foram se acumulando até um ponto sem retorno.
O resultado: três bancos credores, 42 cheques devolvidos duas vezes e o nome em todos os cartórios de São Paulo. Seu pai havia falecido há pouco tempo e ele tinha pouco mais de 20 anos.
Porém, o que mais ficou do relato não foi a lista de dívidas, foi o que ele disse sobre o que a falta de dinheiro realmente faz com a gente: “O pior às vezes não é você tá devendo ou tá sem dinheiro. É você não ter perspectiva. A falta de perspectiva te mata.”
Além disso, Benja contou que acordava de manhã, botava a mão na cabeça e não sabia para onde ir. Todo mundo ligando, cobrando, sem saída à vista, sem o pai para orientar r sem perspectiva. Essa combinação, ele disse, é o que leva ao lugar mais escuro.
Como a família Shaiman mudou a história do Benja
A família Shaiman — Dr. Abran, Cláudio, André, dona Cília e Carla — foi quem o tirou desse lugar. Mas, não do jeito que a maioria das pessoas imagina, já que eles não deram dinheiro.
Porém, eles deram algo muito mais valioso: uma oportunidade real de trabalho e, com ela, perspectiva de vida. O Benja ia conversar com o Dr. Abran, então presidente da Federação do Comércio, e ouvia frases que guarda até hoje. “Eu nunca pedi dinheiro para eles. Porque se eu pedisse, ele obviamente daria. Mas o dinheiro não ia me ajudar — eu pagava ali e daqui a alguns meses estava fazendo tudo de novo.”
Então, com o emprego, ele começou a receber salário e ia todo mês aos cartórios pagar as dívidas, uma a uma, reconstruindo o crédito do zero. E quando surgiu a oportunidade no universo do futebol, através da família Shaiman novamente, foi a virada definitiva.
Até hoje, Benja é convidado para todas as festas da família. Batmitzvá, Barmitzvá — ele vai em todos.
Como o Benja foi parar no jornalismo esportivo?
Depois de passar pela VR e por um dos primeiros sites de futebol do Brasil, o FFC, Benja estava em uma reunião em que esperava ouvir que um programa de rádio estava sendo encerrado. Em vez disso, o apresentador Sombra virou para ele e perguntou: “Benja, você não quer fazer o Estádio 97?”
Ele não tinha nenhuma experiência em comunicação. Por isso, a resposta do Sombra foi direta: “Você é corintiano, você é engraçado e você conhece todo mundo.” Benja topou.
Seis meses depois, a rádio o convidou para assumir também o comercial e o programa cresceu. Assim, veio mais um movimento: ele pegou uma pastinha preta, mandou imprimir textos que escrevia, foi até a redação do jornal Lance — que tinha acabado de ser fundado — e perguntou se tinha espaço para ele. O editor, Marcos Augusto Gonçalves, disse que tinha. E deu a ele a contracapa, que era a página mais lida do jornal na época.
O Benja de hoje: carreira, família e o futebol para o povo
Hoje, Benja apresenta um programa semanal na CNN aos domingos e toca o Canal do Benja no YouTube, onde deu um passo grande em 2025: vendeu metade do canal para João Camargo, do grupo Esfera, e passou a transmitir campeonatos de futebol — Série C, Copa Verde e Copa do Nordeste. Ao todo, são 94 jogos transmitidos até novembro. Também ancora o futebol na rádio TMC.
A escolha pelo futebol do norte e nordeste do Brasil não é por acaso. Além disso, Benja falou com muito carinho sobre Belém do Pará — cidade onde sua mãe cresceu, depois que a família fugiu da Polônia — e sobre a gratidão de levar um produto de qualidade para regiões que, segundo ele, são muito abandonadas.
Na intimidade, ele se descreve como a mesma pessoa que aparece no microfone: simples, sem nome artístico, sem ostentação. A família vem antes de tudo. Gosta de rock, vai a shows com a mulher, nada toda manhã e torce — muito — pelo Corinthians.