70. #PapoÍntimo com Flávio Passos: o que a indústria não quer que você saiba sobre saúde
Postado 2 de junho de 2026 em Papo Íntimo por Ana Beatriz Cardo

Flávio Passos não é médico e nem nutricionista, mas sim formado em marketing. E mesmo assim construiu uma das maiores referências em alimentação saudável e suplementação do Brasil, vendeu a empresa para a Nestlé em uma das maiores transações do setor e hoje comanda um novo negócio completamente diferente de tudo que existe no mercado.
Como Flávio Passos se tornou referência em saúde?
A lista de diagnósticos que Flávio Passos acumulou na adolescência é extensa: obesidade, pré-diabetes, asma severa com uso de bombinha, colite, intestino irritado e transtorno de atenção. Ele cresceu em Belo Horizonte, em um ambiente onde a mãe o criava com o conceito de que “saco vazio não para em pé” — e a gastronomia mineira, abundante e calórica, compunha a maior parte da alimentação da família.
Dessa forma, o ponto de virada veio durante um episódio de dor intestinal intensa. Ele se deitou, fechou os olhos e fez um pedido: que Deus lhe mostrasse algum caminho, porque ele não aguentava mais.
Três dias depois, o pai lhe deu de presente um livro sobre nutrição natural. Flávio tinha 13 anos. No começo, como qualquer adolescente, não deu muita bola. Mas, quando abriu e leu a frase de Hipócrates, sentiu que fazia sentido de um jeito muito claro: o alimento era a matéria-prima da saúde. A frase que mudou o rumo de tudo era “faça do seu alimento o seu principal remédio”.
A partir daí, ele desenvolveu uma sede por conhecimento que não parou mais. Assim, estudou nos Estados Unidos, aprendeu gastronomia natural na Califórnia, estudou Ayurveda na Índia, aprendeu a ler artigos científicos, viajou por institutos americanos e chegou a morar com uma médica americana que o orientou durante estágios nos EUA.
Depois, voltou ao Brasil magro, centrado, com mais foco e fluência verbal. As pessoas começaram a perguntar o que ele havia feito e ele começou a explicar. No entanto, percebeu que precisava de um formato mais estruturado para transmitir aquilo tudo.
Da primeira palestra de quatro horas à venda para a Nestlé: como nasceu a Pura Vida?
Flávio Passos organizou um evento para explicar em profundidade o que havia aprendido. A palestra durou quatro horas e reuniu 20 ou 25 pessoas — e foi um sucesso. Esse evento gerou convites para outros, que geraram mais convites, e quando percebeu, ele havia escolhido a profissão de professor. Sem planejar e sem ter cursado nada da área de saúde.
Nas aulas, além de ensinar sobre alimentação, ele introduzia o tema da suplementação, algo que no Brasil da época era associado quase exclusivamente a atletas. Dessa forma, ele importava os suplementos dos Estados Unidos e da Alemanha para uso próprio. Os alunos começaram a pedir para comprar. Então, ele fez uma importação maior, fracionou na própria casa, criou as etiquetas, colou nas embalagens e vendeu. Foi um sucesso imediato.
Por isso, os alunos insistiram para que ele criasse uma marca. Em 2012, nasceu a Pura Vida.
O critério fundador veio de uma memória de infância: uma reportagem do Jornal Nacional mostrando um produtor de morangos que tinha uma horta separada em casa, sem agrotóxico, para a família — enquanto vendia ao público os morangos tratados com agrotóxico. Mas, Flávio se prometeu que nunca faria isso. Tudo que criasse, criaria para si primeiro e esse princípio guiou cada decisão da empresa.
A Pura Vida cresceu de forma orgânica por anos. Depois, veio um fundo de investimento, um aporte, profissionais de mercado. Durante a pandemia, a empresa cresceu quatro vezes em um único ano e três vezes em cima disso no ano seguinte. Isso porque ela era nativa digital desde o começo e porque Flávio Passos sabia comunicar que COVID era uma doença inflamatória e que pessoas com deficiências nutricionais estavam mais vulneráveis.
Porém, com a entrada do fundo, a cultura mudou. Metas cada vez mais agressivas, promoções infinitas, tensão interna constante. Então, Flávio disse que pediu a Deus para sair, e a Nestlé Health Science apareceu com uma proposta irrecusável. Em 2022, a venda foi concluída e um ciclo foi encerrado da melhor forma possível.
O que é a marca Puríssima e por que ela existe?
Sair da Pura Vida não significou parar, mas significou recomeçar do jeito certo. Como contrapartida pela venda, Flávio Passos pediu à Nestlé liberdade para empreender — especificamente, um waiver do não compete para criar uma empresa de suplementação personalizada.
A Puríssima nasceu para resolver quatro problemas que Flávio via no mercado de suplementação. O primeiro é a confusão de escolha: são tantas marcas, produtos e variações que uma pessoa sem formação técnica não consegue selecionar o que precisa.
O segundo é a fraude: o mercado de suplementação é um dos mais falsificados do Brasil, com rótulos e lacres reproduzidos com tal precisão que é quase impossível distinguir o verdadeiro do falso.
Já o terceiro é o preço: uma suplementação completa no modelo tradicional chega a custar de 1.500 a 2.000 reais por mês. Por fim, o quarto é a baixa adesão: múltiplos potes, múltiplas colheres, horários diferentes, rituais complicados fazem as pessoas abandonarem no meio do caminho.
Agora, a solução: o cliente responde um questionário completo de saúde e um algoritmo seleciona os compostos ideais e as doses. Depois, uma inteligência artificial faz uma revisão. Nutricionistas e farmacêuticos conferem e, quando necessário, ligam para o cliente. Assim, o laboratório manipula a fórmula personalizada e envia em quatro dias. Tudo chega em uma única fórmula — uma colher medida ou poucas cápsulas por período do dia.
O que Flávio Passos pensa sobre proteína, ômega-3 e as canetinhas emagrecedoras?
Em primeiro lugar, sobre proteína, ele deu uma fórmula simples: multiplique o seu peso por 1,6 e o resultado é a quantidade em gramas de proteína que você precisa por dia. Para quem come carne, peixe ou frango, 100 gramas de qualquer uma dessas fontes entrega aproximadamente 25 gramas de proteína.
Por exemplo, outra fonte é o queijo parmesão, com 36 gramas de proteína por 100 gramas, uma das fontes naturais mais concentradas que existem. Além disso, ele recomendou começar as refeições pela proteína — com salada e legumes — porque isso controla o apetite para o restante da refeição sem precisar cortar nada.
Sobre ômega-3, ele explicou que japoneses têm oito vezes mais ômega-3 no sangue do que a média latino-americana, pela quantidade de peixe que consomem. A dieta moderna, rica em óleos de sementes como milho, soja e girassol, tem muito ômega-6 e quase nada de ômega-3.
Porém, quando o corpo tem excesso de ômega-6 sem ômega-3 para equilibrar, a inflamação começa e não tem o que apague. Segundo ele, foi exatamente isso que acontecia nos casos graves de COVID: a ausência de ômega-3 transformava um ataque localizado em um ataque contra o próprio tecido pulmonar.
Sobre as canetinhas emagrecedoras, Flávio Passos foi direto: o principal mecanismo de emagrecimento delas é a saciedade forçada, não algum efeito metabólico mágico. Além disso, há uma consequência séria: estudos mostram que 30% do peso perdido com esses medicamentos é massa muscular. A cada dez quilos perdidos, três são de músculo — um tecido que ele descreve como fundamental para longevidade, metabolismo e qualidade de vida, especialmente no envelhecimento.
Quem é Flávio Passos fora do trabalho?
Na intimidade, Flávio Passos mora na praia, em lugar remoto, com poucos vizinhos. Trabalha de home office há anos. Diz que o volume de pensamentos que passa pela cabeça durante o dia torna o silêncio externo uma necessidade, não um luxo. Sente-se mais perto de Deus na natureza, contemplando estrelas, sentindo o cheiro da chuva, escutando a vida ao redor.
Além disso, tem uma filha de 17 anos e recentemente fez com ela uma viagem à Patagônia — ela pediu de aniversário. Ele descreveu como um momento especial de reconexão: caminhadas, natureza intensa, a filha saindo um pouco do mundo das telas.
Por fim, ele reconhece que o maior inimigo da saúde hoje não é a má alimentação, é o estresse. E que toda a informação do mundo sobre nutrição e longevidade perde força se não vier acompanhada de autoconhecimento, humildade e a capacidade de se revisar todos os dias.